ORAÇÃO DE LILITH

nem pela luz nem pelas trevas.
Eu sou a manifestação da Deusa na terra.
Que não haja fogo ou fogueira capaz de me deter;
Que jamais haja forças no patriarcado para me controlar
pois sou um ser livre!
Sou uma mulher-serpente;
Sou filha do sol e da lua;
Por isso não posso ser controlada.
Posso ser conduzida pelo Poder da Mãe,
mas jamais controlada.
Não existem forças no céu ou na terra
capaz de me deter,
pois sou uma mulher indomada.
Sou o principio feminino,
Sou Lilith!
Que assim seja e assim se faça!
Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Que tu sempre hás de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Ter íntimo sentir, teu coração ardente.
Gostas de te banhar na tua própria imagem.
Das-lhe beijo até, e , às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mística linguagem.
Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos;
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos,
O' mar, ninguém conhece os teus fundos abismos;
Os segredos guardais, avaros, receosos!
E há séculos mil, séc'ulos inumeráveis,
Que os dois vos combateis n'uma luta selvagem,
De tal modo gostais n'uma luta selvagem,
Eternos lutador's ó irmãos implacáveis!
(Charles Baudelaire)
O PAGANISMO

(Tony Kelly, "Pagan Musings" 1970)
Em todas as Eras tem havido mulheres e homens cujas almas têm sido profundamente tocadas pela Natureza, pessoas para as quais as Estrelas falam do seu gracioso silêncio, para as quais a Lua não é só um corpo celeste, para as quais as plantas e os densos bosques são como as catedrais da alma. Pessoas que amam e respeitam a Natureza, tirando partido dela sem a destruir, pessoas que acreditam que homens e mulheres têm os mesmos direitos e se respeitam. Estes são os Pagãos.
Paganismo é uma forma de vida e é uma religião que tem as suas raízes na pureza da infinita variedade da Natureza, venerando a Divindade Feminina e o seu sagrado Masculino em todos seus aspectos. Um ser humano não se concebe só por um ser, é preciso o lado feminino e o masculino para a criação, ninguém nasce do nada, por isso quem nasce com o sentido Pagão nasce amando naturalmente a Deusa e o Deus seu consorte.
Os Pagãos respeitam todas as pessoas e todas as formas de vida como parte de um Todo sagrado. Cada mulher e cada homem é para um Pagão, um lindo e único ser. As crianças são amadas e honradas. Os bosques, as florestas e as clareiras são o lar dos animais selvagens e das aves, que são tratadas com respeito e carinho.
O Paganismo acentua a experiência religiosa pessoal. Nós procuramos a união espiritual com a Divindade através da harmonização com as correntes da Natureza e pela exploração do nosso próprio interior. Os nossos Ritos ajudam-nos a harmonizar com os ciclos naturais das mudanças das estações e a compreende-los, por isso ocorrem nos Equinócios, Solstícios e nos Pináculos, e nas fases da Lua e do Sol.
Podem-se encontrar uma grande variedade de Tradições dentro do nosso largo espectro e isto reflecte a variedade da nossa experiência espiritual. Todo o Pagão é Politeísta por natureza; alguns veneram Deuses e Deusas, enquanto que outros concentram-se numa Força Vital, e outros ainda são devotos de um casal cósmico - Deusa e Deus.
Nós celebramos nossas Divindades, e acreditamos que cada pessoa deve encontrar o seu lar espiritual de acordo com os ditames da tranquila voz interior da sua própria alma. Também por esta razão nós respeitamos todas as religiões sinceras, e não profetizamos nem procuramos convertidos.
Das outras fés e da sociedade em geral, nós só pedimos tolerância.
O Chamado da Deusa Negra - Lilith

Eu sou a ausência de ar que espera no início de cada respiração.
Eu sou o fim antes que a vida recomece, a deterioração que fertiliza o que vive.
Eu sou o poço sem fundo, o esforço sem fim para reivindicar o que é negado.
Eu sou a chave que destranca todas as portas.
Eu sou a glória da descoberta, pois eu sou o que está escondido, segregado e proibido.
Venha a mim na Lua Negra e veja o que não pode ser visto, encare o terror que é só seu.
Nade até mim através dos mais negros oceanos, até o centro de seus maiores medos. Eu e o Deus das trevas o manteremos em segurança.
Grite para nós em terror e seu será o poder de suportar o insuportável.
Pense em mim quando sentir prazer e eu o intensificarei. Até o dia em que eu terei o maior prazer de encontrá-lo na encruzilhada entre os mundos.
Sabedoria e a capacidade de dar poderes são os meus presentes.
Ouça-me, criança, e conheça-me por quem eu sou. Eu tenho estado com você desde o seu nascimento e ficarei com você até que você retorne a mim no crepúsculo final.
Eu sou a amante apaixonada e sedutora que inspira o poeta a sonhar.
Eu sou aquela que te chama ao fim de sua jornada. Quando o dia se vai, minhas crianças encontram seu descanso abençoado em meus braços.
Eu sou o útero do qual todas as coisas nascem.
Eu sou o sombrio, silencioso túmulo; todas as coisas devem vir a mim e suportar a morte e o renascer para o todo.
Eu sou a Bruxa que não será governada, a tecelã do tempo, a professora dos mistérios.
Eu corto as linhas que trazem minhas crianças até mim. Eu corto as gargantas dos cruéis e bebo o sangue daqueles sem coração. Engula seu medo e venha até mim, e você descobrirá a verdadeira beleza, força e coragem.
Eu sou a fúria que dilacera a carne da injustiça.
Eu sou a forja incandescente que transforma seus demônios internos em ferramentas de poder. Abra-se a meu abraço e domínio.
Eu sou a espada resplandescente que te protege do mal.
Eu sou o cadinho no qual todos os seus aspectos se misturam em um arco-íris de união.
Eu sou as profundezas aveludadas do céu noturno, as brumas rodopiantes da meia-noite, coberta de mistério.
Eu sou a crisálida na qual você irá encarar o que te apavora e da qual você irá florescer vibrante e renovada.
Procure por mim nas encruzilhadas e você será transformada, pois uma vez que você olhe para meu rosto não existe volta.
Eu sou o fogo que beija as algemas e as leva embora.
Eu sou o caldeirão no qual todos os opostos crescem para se conhecer de verdade.
Eu sou a teia que conecta todas as coisas.
Eu sou a curadora de todas as feridas, a guerreira que corrije todos os erros a seu tempo.
Eu faço o fraco forte. Eu faço humilde o arrogante. Eu ergo o oprimido e dou poderes ao desprivilegiado. Eu sou a justiça temperada com compaixão.
Eu sou você, eu sou parte de você, estou dentro de você.
Me procure dentro e fora e você será forte. Conheça-me, aventure-se nas trevas para que você possa acordar com equilíbrio, iluminação e plenitude.
Leve meu amor consigo a toda parte e encontre o poder interior para ser quem você quiser.
Nyx - "A domadora dos Homens e dos Deuses"

A deusa em seu carro puxado por cavalos negros percorre o céu com seu manto negro, sempre acompanhada das Queres, suas filhas. Cobrindo a cabeça com seu manto estrelado.
Ela possuí poderes proféticos, o segredo da imortalidade, a seu gosto pode retirar a imortalidade de um Deus e transformá-lo em um simples mortal, assim como ela fizera com Crono após ele ter sido destronado por Zeus. Por isso Zeus possui um enorme respeito e temor por ela. Homero a classifica como “A domadora dos Homens e dos Deuses”. Foi ela quem criou a arma que Gaia entregou a Crono a fim de destronar Urano.
Nyx foi a segunda divindade a surgir do vazio, Filha do Caos, assim como seu irmão Erebo – a escuridão. Mas para Hesidio Nyx é a irmã de Caos. Então Gaia ( mãe Terra) e Tártaeo (as trevas) seriam seus irmãos, juntos são as divindades mais antigas da mitologia grega.
Nyx por sua vez teve dois filhos com Érebos [seu irmão, o segundo filho do Caos], deste encesto nasceram: Éter - a dinvidade da luz e Hemera – o dia. Sozinha ela também podia ter filhos [assim como seu pai] deu vida através do seu Ovo Cósmico a várias crias divinas, elas são: Éris – a discórdia. Nêmesis – a justiça divina, a ética. Queres – o destino fatal, cruel, são Deusas que trazem a morte violenta aos mortais. As Moiras (Cloto, Lachesis e Atropolos) essas são bem conhecidas, várias histórias fazem referência a elas, elas são as responsáveis por tecer o destino, responsáveis pelo “fio da vida”. As Hespérides – são a tarde: Egle (A Brilhante), Eritia (A Vermelha) e Hesperetusa (A Ágil do Poente) seriam então o incio, meio e fim do percurso solar, são as luzes douradas do por do sol, as ninfas do poente. Também são filhos de Nix: Apate – o engano, Caronte – o ser que guia o barco no mundo dos mortos no Rio Aqueronte, Ênio – carnificina, Filotes – a amizade, Geras – a velhice. Hipnos – o sono, Limos – a fome, Lissa – a loucura, Momus – a culpa, Moros – destino, os Oneiroi – os sonhos, Ponos – labuta, Tânatos – a morte.
Para evitar pronunciar seu nome, também a chamavam de Eufrone e Eulália. Suas filhas Hemera e Hespérides foram criadas para ajudá-la, com isso nasceu o ciclo diário. Hemera traz o dia, e as Hespérides trazem a tarde, Nyx por sua vez traz a noite absoluta.
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ORAÇÃO DA CABRA PRETA - de São Cipriano

Reza-se essa oração com uma vela acesa e uma faca de ponta nas mãos, trocando "fulano" pelo nome da pessoa para quem se reza a oração, essa oração pode ser usada tanto para fazer mal o bem para a pessoa, tudo depende das inteções de quem reza a oração:
Cabra Preta milagrosa que pelo monte subiu, trazei-me fulano, que de minha mão sumiu. Fulano, assim como o galo canta, oburro rincha, o sino toca e a cabra berra. Assim tu hás de andar atrás de mim.
Assim como Caifaz, Satanás, Ferrabraz e o Maioral do inferno que fazem todos se dominar, fazei fulano se dominar, para me trazer cordeiro, preso debaixo de meu pé esquerdo.
Fulano, dinheiro na tua e na minha mão na há de faltar, com sede tu nem eu haveremos de acabar, de tiro e faca tu nem eu há de pegar, meus inimigos não hão de me enxergar. A luta vencerei com a oração da Cabra Preta milagrosa. Fulano, com dois eu te vejo, com três eu te prendo com Caifaz, Satanás, Ferrabraz.

Não temo mais...
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Pulsos Cortados
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post by Lady.6.4.3
Anjo Caído

Tu dizes que sou anjo...
Talvez seja, quem sabe?
Mas... se fosse...
(Alertar-te se faz necessário)
Seria daqueles que caíram
Por vontade ou castigo
Pela esperança, motivados
De sentir as humanas expressões
Da Terra, atraídos pelo chão
Abandonando os etéreos espaços
As luzes e os celestes campos
Ansiosos por paixão.
Não seria daqueles anjos belos
Suaves, perfeitos...
E sim daqueles rudes, caricatos
Rebeldes, curiosos...
Confusos, tolos.
Talvez eu, um anjo fora,
Que por ser mais humano
Que anjo,
Preferira cair que subir,
E agora,que é caído,
Permanecer quer assim
Porque assim conheceu
O mais profundo sentimento humano
Aquele que tu despertaste em mim
O que mais sentir faz
Todas as humanas sensações
E que saber me fez
Que um ser humano é capaz
De todas as angelicais percepções
O que o faz,mesmo que besta,
Um anjo!
_________
{José Antônio Gama de Souza}
post by Lady.6.4.3
Funeral

Caminho estreito na passagem lúgubre
Procissão noturna de lágrimas e vento
Lua, suave, observa a escuridão.
Atenta, sussurra lábias em triste tom
Passos pesados pela madrugada
Ecoam profunda dor, gritando alto
Sangram frias o passado tão cruel
Como as rosas vermelho-quentes
Escarlate se fez a vastidão
Quando o visitante de mil rostos
Desceu do seu trono abissal
A colheita então teve início
E tudo foram gritos por horas
Tornada vazia, a névoa desfez-se
Com ela, a esperança deixava o antro
De paredes úmidas, gotejando ódio
Não mais o dia acordaria, calor e luz
Nenhum sol outra vez brilharia
Somente a gaiola, concreto e pó
A fumaça na janela, denso clarão
Toma destino quieta e perpetra
A rua, o céu, a lua
Silhuetas escuras agouram alma perdida
Que, só e aflita, acorda termos póstumos
Prepara-se o novo círculo de senhores negros
Governantes taciturnos e frios da imensidão
O fogo eterno e interior
Bebe-os inteiros e em goles rápidos
Mórbida, prossegue a procissão
Um coro intenso leva as vozes em prantos nós
Desatando em desespero sublime
Doce alimento, predatória refeição
Dos pássaros carniçeiros, mergulhando
À própria sorte, à certa morte.
________
{Andarilho dos Sonhos}
postado por Lady643
QUERO COMER AS CARNES PODRES DO TEU CADÁVER

Agora que estás morta e apodrecendo,
Oculta na clausura do caixão,
Eu quero, com a fome de um leão,
Comer o teu cadáver estupendo!
Necrofagia: É disso que eu entendo!
Quero comer a tua podridão,
Mastigar e engolir com emoção
O que os vermes também estão comendo.
Eu vou te devorar com meu critério:
Vou invadir o velho cemitério,
Desenterrar teus cálidos destroços,
E devorar teu corpo podre e preto;
E após sobrar apenas o esqueleto,
Eu vou querer lamber até seus ossos!
à beira de um abismo...
Quero asfixiar o grito de minh'alma;
Vou esquartejar o meu medo...
E apunhalar meus sentimentos.
Sou a vítima da minha própria insanidade.
Sou o nada à beira de um abismo...
{autoria: Lady643}
Copyright © Lady643/Angels Of Night
©Todos Os Direitos Reservados.
São Cipriano
Aqui eh Lady643 quem vos fala.
Depois de séculos sem postar aqui, hoje resolvi o fazer. Hoje vim falar sobre a lenda de São Cipriano - O Feiticeiro - que confunde-se com um outro célebre Cipriano imortalizado na Igreja Católica, conhecido como Papa Africano. Apesar do abismo histórico que os afasta, as lendas combinam-se e os Ciprianos, muitas vezes, tornam-se um só na cultura popular. É comum encontrarmos fatos e características pessoais atribuídas equivocadamente. Além dos mesmos nomes, os mártires coexistiram, mas em regiões distintas.
Cipriano – O Feiticeiro - é celebrado no dia 2 de Outubro. Foi um homem que dedicou boa parte de sua vida ao estudo das ciências ocultas. Após deparar-se com a jovem (Santa) Justina, converteu-se ao catolicismo. Martirizado e canonizado, sua popularidade excedeu a fé cristã devido ao famoso Livro de São Cipriano, um compilado de rituais de magia.
A fantástica trajetória do Feiticeiro e Santo da Antioquia, representa o elo entre Deus e o Diabo, entre o puro e o pecaminoso, entre a soberba e a humildade. São Cipriano é mais que um personagem da Igreja Católica ou um livro de magia; é um símbolo da dualidade da fé humana.
fonte: Spectrum
Florbela Espanca
Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.
Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!
Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.
E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!
Flor Bela de Alma da Conceição Espanca
[Florbela Espanca]
(Vila Viçosa, 8 de dezembro de 1894 - Matosinhos, 8 de dezembro de 1930)
Precursora do movimento feminista em Portugal, teve uma vida multuada, inquieta, transformando seus sofrimentos íntimos em poesia da mais alta qualidade.
Teve três casamentos mau sucedidos e dois abortos involuntários.
A morte do irmão, Apeles (num acidente de avião), abala-a gravemente.
Tentou o suicídio por duas vezes em outubro e novembro de 1930. Por fim, após o diagnóstico de um edema pulmonar, suicida-se no dia do seu 36º aniversário, utilizando uma dose elevada de veronal.
Homenagem pelo seu dia... aniversário de nascimento e de morte.
Florbela Espanca... não sei se estou nela ou se ela está em mim.
Poetas da Noite

Somos seres da noite
De escuros sentimentos
Tristes corvos a vagar
Cantando seus lamentos...
Pequenos e belos seres sinistros
Poetas da Saudade e da Dor
Profetizamos a tristeza noturna
Choramos o amor que se foi...
Temos um negro coração a pulsar
Nossos pensamentos são mistérios
Louvamos a noite e o luar
Nosso templo é o cemitério...
Vivemos a morte em vida
Celebramos a nossa cultura
Negros trajes é a nossa alma despida
Em vida e na sepultura...
©Todos Os Direitos Reservados.
Poesia: Reencarnação
Que ainda pude socorrer com vida
Sem poder salvar, nem curar sua ferida
Libertou-se da dor, como de um cárcere.
Um pequeno ser tão sem importância
Ao ver morrer tanto me fez chorar
Como se uma intuição me fizesse recordar
E eu sem entender tal significância...
Fiquei a imaginar o que tinha de importante
Se foi meu parente, se foi meu amante?
Cheguei até a crer em reencarnação...
Mas que triste sina ter-se reencarnado
Nesta vida sendo este pequeno pássaro
Que a paz alcançara sobre a minha mão.
{autoria: lady Morphyna}
Copyright © by lady Morphyna/Angels Of Night
©Todos Os Direitos Reservados.
Minha dor

Eis aki a minha dor
se ha cura n conheço
nem a ciencia ou Alquimia
desvendou tal façanha!
by Darkcell Saint James
A um suicida

Tu crias em ti mesmo e eras corajoso,
Tu tinhas idéias e tinhas confiança.
Oh! , quantas vezes desesp'rançoso,
Não invejei a tua esp'rança!
Dizia para mim: - Aquele há-de vencer
Aquele há-de colar a boca sequiosa
Nuns lábios cor de rosa
Que eu nunca beijarei, que me farão morrer...
A nossa amante era a Glória
Que para ti - era a vitória,
E para mim - asas partidas.
Tinhas esp'ranças, ambições...
As minhas pobres ilusões,
Essas estavam já perdidas...
Imersa no azul dos campos siderais
Sorria para ti a grande encantadora,
A grande caprichosa, a grande amante loura
Em quem tínhamos posto os nossos ideais.
Robusto caminheiro e forte lutador
Havias de chegar ao fim da longa estrada
De corpo avigorado e de alma avigorada
Pelo triunfo e pelo amor.
Amor! Quem tem vinte anos
Há-de por força amar.
Na idade dos enganos
Quem se não há-de enganar?
Enquanto tu vencerias
Na luta heróica da vida
E, sereno, esperarias
Dos bem-fadados da Glória,
Dos eternos vencedores
Que revivem na memória -
Sem triunfos, sem amores,
Eu teria adormecido
Espojado no caminho,
Preguiçoso, entorpecido,
Cheio de raiva, daninho...
Recordo com saudade as horas que passava
Quando ia a tua casa e tu, muito animado,
Me lias um trabalho há pouco terminado,
Na salazinha verde em que tão bem se estava.
Dizíamos ali sinceramente
As nossas ambições, os nossos ideais:
Um livro impresso, um drama em cena, o nome dos jornais...
Dizíamos tudo isso amigo, seriamente...
Ao pé de ti, voltava-me a coragem:
Queria a Glória... Ia partir!
Ia lançar-me na voragem!
Ia vencer ou sucumbir!...
........................................................................................
........................................................................................
Ai! mas um dia, tu, o grande corajoso,
Também desfaleceste.
Não te despojaste, não. Tu eras mais brioso:
Tu, morreste.
Foste vencido? Não sei.
Morrer não é ser vencido,
Nem é tão-pouco vencer.
Eu por mim, continuei
Espojado, adomercido,
A existir sem viver.
Foi triste, muito triste, amigo, a tua sorte -
Mais triste do que a minha e malaventurada.
... Mas tu inda alcançaste alguma coisa: a morte
E há tantos como eu que não alcançam nada...
Mário de Sá Carneiro, Lisboa, Outubro de 1911.

by Lord Darkcell Saint James
ultima ceia

Como de hábito fui ao cemitério
Lá me deitei sobre a lápide fria
No sepúlcro, parceiro de utopia
Que aquece meu coração funério
Meu cúmplice também tem seu mistério
De dentro do túmulo uma voz gemia
Pensei ser um cadáver em rebelia
Ou ossos dançando entre o minério
Eram os vermes ceifando seu festim
A mesa posta pra dividir comigo
Um banquete pútrido ofertado a mim
Breve estarei com vós em meu jazigo
A última ceia faremos, por fim
Cearei com eles e eles comigo
by Lord Darcell
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